OverClock
Domingo, 25 de Fevereiro de 2018

Análise | Age of Empires Definitive Edition cativa, mas tropeça em erros antigos Domingo, 25 de Fevereiro de 2018

Análise | Age of Empires Definitive Edition cativa, mas tropeça em erros antigos

Os anos 90 e início dos anos 2000 foram a época dourada de um gênero de jogo que hoje sobrevive graças, principalmente, a Civilization e Tropico. Quem viveu aquela época sabe muito bem a satisfação que é vencer um mapa em jogos como Command & Conquer, Commandos, StarCraft e em tantos outros que se encaixam na categoria Real-timing Strategy (RTS).

Todos esses títulos alcançaram sucesso considerável, mas o favorito daqueles que se aventuravam numa jogatina empunhando um mouse de bolinha e teclado Clone junto com um monitor de tubo de 14 polegadas e 640 x 480 pixels de resolução era, sem dúvidas, Age of Empires. Clássico lançado pela Microsoft em 1997, AoE, como era chamado carinhosamente nas lan houses da vida, se destacou dos demais por trazer uma narrativa baseada em civilizações e fatos históricos reais.

Agora, em 2018, a Microsoft brinda aos 20 anos de vida do jogo que marcou época com o lançamento de Age of Empires: Definitive Edition, uma versão remasterizada com gráficos 4K, trilha sonora orquestrada e alguns ajustes de jogabilidade para agradar tanto fãs nostálgicos quanto novos.

Mas será que esse facelift gigantesco justifica este relançamento? Mais do que isso, será que ele é suficiente para sustentar um jogo com duas décadas de vida nas costas?

 

Hey, nice town!

O momento para a chegada desta remasterização não poderia ser mais propício: o mercado de joguinhos está inundado de remasterizações e nada melhor do que trazer um clássico indiscutível de volta à vida. A ideia, portanto, é apelar para a nostalgia e fisgar o coração de quem está esperando por um novo Age de verdade desde 2005, quando Age of Empires III foi lançado.

Em Age of Empires: Definitive Edition a Microsoft tenta amenizar esse hiato de 13 anos recorrendo aos gráficos retrabalhados do título. Saem de cena sprites 2D quadradões e entram em ação novas texturas, refeitas do zero, com resolução 4K e tudo o mais — basta ter um computador e monitor que suportem isso tudo. Essa nova roupagem, inclusive, traz um nível de detalhes absurdamente alto e que pode ser conferido bem de perto graças ao zoom de até 4X do jogo. Desde os armamentos empunhadas pelas unidades até os mínimos pedaços do Coliseu se esfacelando, é possível ver absolutamente tudo com perfeição aqui.

Age of Empires: Definitive Edition é tão bem-sucedido nesse aspecto que muita gente é levada a acreditar que seus gráficos são 3D, quando na realidade são 2D. Sim, tudo foi feito em 2D utilizando a velha técnica da isometria, que ficou famosa em Super Mario RPG, Rock 'N Roll Racing e no próprio Age of Empires — uma prova disso é que a câmera ainda é fixa.

Comparativo mostra a diferença gritante que existe entre os gráficos originais e os da Definitive Edition
Comparativo mostra a diferença gritante que existe entre os gráficos originais e os da Definitive Edition (Imagem: Divulgação/Microsoft Studios)

Indo além do aspecto visual, a trilha sonora e os efeitos sonoros de Age of Empires: Definitive Edition também receberam um trato todo especial. Agora os temas do jogo são todos orquestrados e soam muito mais reais aos nossos ouvidos, sem passar aquela sensação de que foram feitos num sintetizador. O mesmo vale para a narração, falas e sons gerais do título, todos refeitos a partir do zero.

Aos olhos e ouvidos dos saudosistas que, como eu, jogaram o Age of Empires original 20 anos atrás, essa recauchutada faz o coração bater mais acelerado e encanta não só por sua beleza estética, mas principalmente por nos fazer lembrar do jogo exatamente como ele está em nossas memórias. Todavia, a essa altura do campeonato (ou da batalha, como preferir) surge esta dúvida: há algo mais sob essa generosa camada de gráficos e sons remasterizados?

AoE Definitive Edition fisga corações nostálgicos com gráficos detalhados suficientes para mostrar os pedacinhos do Coliseu se esfacelando
AoE Definitive Edition fisga corações nostálgicos com gráficos detalhados suficientes para mostrar os pedacinhos do Coliseu se esfacelando (Imagem: Divulgação/Microsoft Studios)

Wololo

Veja bem, estamos falando de um remake e isso significa que, fora o tapa nos gráficos e nos sons, Age of Empires: Definitive Edition é essencialmente o mesmo jogo de duas décadas atrás. E isso não é algo necessariamente ruim, sobretudo se você for um ávido apreciador da História.

Repetindo a fórmula que tornou a série famosa, todas as batalhas desta remasterização se respaldam em eventos que aconteceram de verdade milhares de anos atrás. Até a campanha inicial, "Ascensão do Egito", que serve como um grande tutorial, se baseia em fatos que ocorreram ali, às margens do Rio Nilo. Ao mesmo tempo em que ensina os novatos a como construir casas, coletar alimentos e montar um exército, Age of Empires contextualiza as missões e instrui sobre praticamente tudo o que aconteceu naquela região — e na Grécia, e em Roma, e em mais outras 14 civilizações clássicas contempladas pelo jogo. É algo que mostra a meticulosidade não só do trabalho de pesquisa da produção como também a adaptação dos mapas e da narrativa a esses acontecimentos.

O único problema é que, ao contrário do que muita gente está acostumada hoje em dia, tudo isso é contado em texto — e não em videozinhos. Sim, são quilômetros de texto que tomam uma quantidade considerável de tempo para serem lidos e desaceleram significativamente o ritmo da jogatina. Para os mais afoitos e/ou que não têm o hábito da leitura, o game pode parece moroso e arrastado.

Mesmo com a recauchutada geral, o charme da remasterização continua sendo o clássico respaldo histórico
Mesmo com a recauchutada geral, o charme da remasterização continua sendo o clássico respaldo histórico (Captura de tela: Sergio Oliveira)

Há formas de aumentar a cadência e torná-la mais aceitável. Você sempre vai poder pular a "contação de história" (embora particularmente eu ache que isso tira todo o charme do game) e, se isso não for o suficiente para acelerar as coisas, Age of Empires: Definitive Edition ainda vem com velocidade de jogo marcada como "Rápida" por padrão — algo certamente pensado para o compasso frenético dos dias atuais. Na prática, a sensação é de que a velocidade está normal, mas ainda há a opção de ajustar essa configuração para "Normal" ou "Muito Rápida", a seu gosto.

Fora isso, rolou uma série de outros ajustes para deixar o gameplay mais fluido e dinâmico, sem as limitações do Age de 1997. As fazendas, por exemplo, não precisam mais ser contornadas e as unidades podem passar por cima delas. Falando nas unidades, agora elas podem ser criadas em lotes, enquanto as construções finalmente ganharam uma fila de espera. O limite populacional também foi ajustado, subindo de 50 para 250 por jogador e por aí vai. São ajustes bem-vindos e que podem parecer um tanto quanto bobos nos dias de hoje, principalmente quando testemunhamos franquias como Civilization evoluírem tão bem nos últimos anos, mas que fazem total sentido para um game idoso, com vinte anos nas costas.

Ajustes na jogabilidade permitem que remasterização seja mais palatável ao público da atualidade. Uma das mudanças foi o incremento do limite populacional
Ajustes na jogabilidade permitem que remasterização seja mais palatável ao público da atualidade. Uma das mudanças foi o incremento do limite populacional (Imagem: Divulgação/Microsoft Studios)

Gold please

Não dá para negar que rolou um grande esforço para tornar Age of Empires: Definitive Edition mais palatável à atualidade, mas em alguns momentos é evidente que esse cuidado foi superficial e muito limitado.

Se por um lado os gráficos bonitões trouxeram uma naturalidade ímpar à ambientação e aos personagens deste remaster, o mesmo não pode ser dito de sua inteligência artificial. O caso mais emblemático, e que ilustra muito bem isso, ocorre quando uma grande quantidade de unidades se desloca ao mesmo tempo pelo mapa. Se você não prestar atenção e acompanhar toda a movimentação, pode se surpreender ao encontrar meia dezena delas enganchadas em arbustos, florestas, minas e construções no meio do caminho.

Em mais uma demonstração de que a inteligência artificial é legada do jogo original de vinte anos atrás, muitas vezes as unidades pegam desvios estúpidos e que não fazem o menor sentido rumo ao seu destino. Essa burrice poderia ser perdoada caso não prejudicasse tanto o resultado final da jogatina, pois é comum darmos de cara desprevenidos com o exército inimigo.

Por falar em exército, há uma dificuldade gigantesca de as unidades militares se organizarem automaticamente para atacar um alvo específico. Ao invés de se posicionarem ao redor do inimigo, elas tentam forçar passagem sobre as que já estão em ação e acabam não fazendo nenhuma coisa nem outra. Dá para contornar o problema, sim, selecionando cada uma das unidades "desorientadas" e as posicionando manualmente — o que além de não ser prático não é recomendado num combate de grandes proporções. O resultado disso são mortes frustrantes a troco de nada.

Sistema confuso de orientação das unidades fazem com que elas se dispersem em situações críticas como este cerco ao inimigo
Sistema confuso de orientação das unidades fazem com que elas se dispersem em situações críticas como este cerco ao inimigo (Imagem: Divulgação/Microsoft)

Outro ponto que incomoda é o desbalanceamento da dificuldade do jogo — algo que fica mais evidente a partir da campanha "Glória da Grécia". Já na segunda missão, "Acrópole", você inicia com dois ou três batedores e é atacado, sem exageros, em questão de segundos. Não importa quão rápido novos soldados sejam criados, o que se vê é uma verdadeira blitzkrieg que não é superada nem mesmo reduzindo a dificuldade de moderado para normal ou para fácil — a investida inimiga vem tão rápido quanto e na mesma intensidade de antes. O jeito é segurar as pontas e se virar nos 30, literalmente.

Sim, a gente entende que está falando de um remaster e não de um remake, logo alterações na engine e programação do jogo não são contempladas. Mesmo assim, causa certa estranheza perceber que foram feitos alguns ajustes de jogabilidade que exigem reprogramação, mas questões mais críticas foram negligenciadas.

I just got some... satisfaction!

A nova roupagem apresentada por Age of Empires: Definitive Edition chama a atenção e cativa tanto jogadores antigos quanto novos. O problema é que o nível de satisfação que o jogo proporciona pode variar dependendo desse público.

Certamente quem cresceu jogando no PC na década de 90 não vai estranhar a quantidade absurda de texto que o jogo usa para contextualizar absolutamente tudo. Tampouco vai estranhar o ritmo mais lento com que as coisas se desenrolam — só a campanha de tutorial, por exemplo, leva uma hora para ser concluída, algo inimaginável para os padrões atuais. Para esse público, este AoE surge como um refúgio aconchegante e familiar recheado de boas lembranças.

Por outro lado, é possível que a nova roupagem não seja suficiente para prender a atenção das novas gerações, que dificilmente experimentarão da mesma satisfação que os velhacos saudosistas. Mesmo com as melhorias de jogabilidade apresentadas, Age of Empires: Definitive Edition ainda é o mesmo jogo de sempre, voltado para um público de duas décadas atrás. Fora o ritmo e estilo de jogo mais arrastado, ele sofre de problemas crônicos que, apesar de não atrapalharem a experiência como um todo, evidenciam que os retoques foram apenas superficiais, como numa maquiagem — no máximo um botox bem aplicado.

*Age of Empires: Definitive Edition foi testado com cópia digital cedida gentilmente ao Canaltech pela Microsoft Brasil.


Compartilhe: http://tinyurl.com/ybpavhm3