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Segunda, 13 de Julho de 2020

Crítica | Dente de Leite é sobre morte e vida, mas é muito mais sobre amor Segunda, 13 de Julho de 2020

Crítica | Dente de Leite é sobre morte e vida, mas é muito mais sobre amor

 

Estar perto de uma doença terminal – mas não ser a pessoa doente – pode ser perturbador. Essa doença pode drenar o psicológico de qualquer pessoa. Passei duas vezes pelo câncer sem ter a doença. Na primeira vez, ainda adolescente, vi meu pai vencer, na segunda, há pouco tempo, foi a vez de minha ex-sogra conseguir passar por tudo e se recuperar. Tive sorte de ver, bem de perto, duas lutas bem diferentes que resultaram em vitória; de duas pessoas que, dos seus modos, sentem medo da morte e esse medo está ligado ao amor que têm pelos filhos.

Apesar desses dois casos tão próximos, há alguns meses minha ligação com o câncer se tornou ainda mais presente. Conheci e senti saudade de quem não conseguiu vencer. Mais de uma vez, não pude me despedir. Dente de Leite, por essa perspectiva pessoal, bateu tão forte em mim e de um jeito tão verdadeiro que as lágrimas não desceram em qualquer momento durante as quase duas horas de sua duração. Senti como se estivesse acompanhando Milla (Eliza Scanlen) e, assim, eu não podia demonstrar fragilidade; esta que, agora, contamina meu texto. E há motivos na linguagem da diretora estreante Shannon Murphy para que essa sensação seja tão forte.

Atenção! Esta crítica pode conter spoilers sobre o filme!

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Olhando nos olhos

Optando por iniciar o filme sem ser evasiva, Murphy apresenta seus protagonistas e a relação entre eles na primeira cena. Com um ar de estranheza, o primeiro contato entre Milla e Moses (Toby Wallace) já apresenta boa parte da simbologia que manterá o casal unido. Nesse sentido, ao mesmo tempo em que ele fica quase que hipnotizado pelo cabelo dela – que é como uma joia para ele –, ela entra em contato com algo totalmente oposto de si e das colegas que embarcam no trem. Moses é como um respiro de vida, alguém que a retira de uma espécie de bolha melancólica e a apresenta a um mundo totalmente novo. Enquanto ela, fardada para o colégio, é a menina de pele virgem e cabelo de bracelete, ele tem a pela maltratada, o corpo bastante tatuado e o cabelo com um autocorte.

O primeiro contato entre Milla e Moses. (Imagem: Screen Australia)

O roteiro da também estreante Rita Kalnejais, inclusive, parece consciente de que a história dos opostos que se atraem pode não passar da romantização da conformação. Não demora, portanto, para expor que Milla tem – ou quer ter – mais vida do que seus pais, que sofrem internamente com a doença dela, e até mesmo de personagens secundários, como Toby (Emily Barclay), que mesmo grávida parece ter uma vida de rotina que consiste basicamente em caminhar pelo bairro com seu cachorro Henry. A partir dessas circunstâncias, a diretora opta pela estranheza, usando de esquisitices como que para demolir a normalidade dos coadjuvantes em detrimento da nova vida da protagonista.

Essa escolha de estilo acaba, cada vez mais, por aproximar Milla e Moses e a afastar a personagem dos pais – tal qual ele (Moses) está distanciado da própria mãe (interpretada por Georgina Symes). Esse afastamento acontece, a princípio, por meio do texto de Kalnejais, mas é a direção de Murphy que potencializa tudo e, ao mesmo tempo, torna cada segundo perto da protagonista algo revelador. Para isso, um elemento utilizado pela diretora é o grau de proximidade e intimidade: enquanto todos os outros personagens são expostos com algum distanciamento, Milla está constantemente ligada a closes. Além disso, ela é a única que quebra a quarta parede. Essas quebras são tão inusitadas e íntimas que o efeito pode ser o de trazê-la, justamente, para perto do espectador, quase como se pudéssemos olhar nos olhos dela de verdade.

Dente de Leite, além de tudo, não se esquiva de traçar comentários ao comportamento humano e, especialmente, ao que se refere à empatia. Em determinada cena, por exemplo, uma colega de colégio pede para experimentar a peruca de Milla por não mais que estética. A menina, do passado recente com cabelos de joia, fica acuada como um animal amedrontado pela intromissão da doença da antipatia. Algo que era tão seu passa a ter um caráter de curiosidade; sem seu bracelete de ouro, aquele momento a transforma em um manequim, em um suporte para adereços.

O amor pela vida

É interessante como toda a linguagem de Murphy é acompanhada pela fotografia de Andrew Commis (de O Sonho de Greta) por meio de uma iluminação fria quando nas cenas que não contam com a presença de Moses e por luzes aquecidas ou coloridas quando na presença do casal. Aliás, a direção de arte de Bill Goodes (de Slam) não somente acompanha o trabalho de Commis como confere muito mais cores ao ambiente e rege o figurino de Amelia Gebler (de OtherLife), que não se priva do bom exagero de colorizar até uma peruca – que passa a ser muito mais que um adereço para fotografias de colegas e acrescenta força de personalidade à Milla.

O colorido da fotografia de Commins. (Imagem: Screen Australia)
"Muito mais que um adereço para fotografias." (Imagem: Screen Australia)

Tudo ao redor de Milla, pouco a pouco durante todo o filme, passa a ter muita vida, o que acontece exatamente desde seu primeiro encontro com Moses, na primeira cena, quando seu olhar perdido parece conhecer o primeiro amor. Ao passo que a vida vai se esvaindo com o câncer, a sensação de estar viva cresce junto ao amor. A síntese de tudo está na visão de Murphy sobre a única cena de sexo entre os dois: acontece exatamente após um flerte dela com a morte. Naquele momento, a morte e a vida (simbolizada pelo sexo) parecem se abraçar, no que é das cenas mais sensíveis dos últimos anos.

Isso porque é Moses quem lhe tira da bolha melancólica, simbolicamente transformando sua joia dourada (seu cabelo), antes com um corte tão padrão, em algo único. Mas, mesmo que o rapaz tenha tanta força sobre os últimos respiros de vida dela, é ela quem decide viver intensamente seus dias contados. É verdade que as pessoas que a amam parecem manter presas as dores de vê-la partindo – algo que a cena final, com seu pai (interpretado por Ben Mendelsohn) não conseguindo sorrir para uma foto, traduz dolorosamente –, mas é ela quem sofre com o medo da morte. Não tendo filhos, é um medo que não está ligado ao amor por eles (como foi com meu pai e minha ex-sogra), mas está intimamente preso ao amor por quem foi capaz de transformar sua vida em meio ao caos e, sobretudo, ao amor pela vida.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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